RECONSTRUIR PINHAL INTERIOR NORTE: ESPERANÇA CONSTRUÍDA A VÁRIAS MÃOS

Ainda durante a tragédia que assolava o Pinhal Interior Norte, um grupo de cidadãos teve a ideia de ajudar neste flagelo, comprometendo-se a construir uma casa em cada concelho afectado, devolvendo a esperança devorada pelo fogo. Estivemos à conversa com o Joel Silva, com o Leonel Antunes e com o Célio Silva para saber um pouco mais sobre o projecto, a sua evolução e perspectivas para o futuro.

Face à tragédia ocorrida em Pedrogão, Joel Silva, de Vila Cã, Leonel Antunes, de Ansião, e Célio Silva, de Almagreira, juntaram-se em prol de uma causa. Qual? A de reconstruir uma casa por cada concelho mais afectado por um dos maiores flagelos, em termos de fogos florestais, e não perderam tempo em arregaçar as mangas. Aliás, ainda o fogo lavrava as vastas áreas do Pinhal Interior e, como afirma o Joel Silva, “alguns amigos começaram a brincar um bocadinho no Facebook e colocaram ‘temos de fazer algo mais, temos que ir para uma casa, temos que fazer uma casa’ “. E, assim, nasceu o ReConstruir o Pinhal Interior Norte.

A estrutura do ReConstruir, neste momento, tem como núcleo central “doze, treze elementos”, mas contam com o apoio de uma “estrutura flutuante de pessoas, que vão e vêm, que querem ajudar, que nem sempre têm disponibilidade, mas que quando podem vão e que terá mais ou menos oitenta pessoas até agora”. Também assinalam o papel preponderante do Rotary Club e do Interact Club, neste projecto. Sobre o balanço feito, Célio Silva é peremptório. Dos três concelhos, só “Figueiró não demonstrou a necessidade do nosso apoio.” Das duas restantes, o projecto está numa “delas numa fase já mais ou menos adiantada, fundações concluídas, e a segunda também já com o projecto praticamente pronto”. As maiores dificuldades são sentidas, e rapidamente explanadas, na componente do voluntariado. Mais do que as pessoas que dedicam um dia semanal à causa, ou às empresas que colaboram com materiais, remete-nos como principal dificuldade a questão da “logística de coordenação, não sendo uma prioridade para as empresas,  traz aqui algum atraso”. Também a burocracia não é poupada a críticas, visto que “a intenção inicial era entregar as casas no Natal, que não está fora de parte, mas está comprometida”. No entanto, Célio Silva desdramatiza a questão e assegura que a meta “não sendo no Natal, seja em que data for”, mantém-se o objectivo de “entregar as casas, chave na mão às pessoas, prontas a habitar e para que possam, de facto, continuar uma vida feliz nas mesmas”.

E para quem não conhece o projecto, ou como é que funciona e de que forma é que se pode participar, Leonel Antunes esclarece rapidamente. Apesar de uma das premissas do projecto ser a descrição, entenderam que somente a base dos contactos pessoais não facilitava a adesão de novos voluntários à ReConstruir, optando-se, assim, pela criação de uma página de Facebook “onde as pessoas pudessem acompanhar o nosso trabalho, conhecê-lo e, eventualmente, interessarem-se por ele e juntarem-se a nós”. Leonel reforça a importância do voluntariado nesta causa e destaca que “defendemos que nunca somos de mais, o trabalho de voluntariado e sendo de voluntariado implica que todos nós tenhamos uma vida profissional paralela ao ReConstruir e muito do trabalho é feito no tempo que alocaríamos à nossa vida pessoal ou a outras actividades”. Porém, dá um conselho a quem pretende juntar-se a esta iniciativa que é o de estarem predispostas a aprender, já que a ReConstruir prende-se com trabalhos na área de construção civil, e lança um repto em especial para toda a mão de obra especializada em construção civil.

Sobre a adesão de voluntários ao projecto, Joel Silva aponta que há evoluções positivas, bem como negativas. Num plano geral, afirma que “tivemos uma fase, quando nós anunciamos que íamos fazer uma casa, tivemos uma fase a que eu, na brincadeira e pessoalmente, designo como fase graçola. Essa fase passou rapidamente… E eu costumo dizer que passou no dia em que a giratória entrou no projecto. Isto é, quando nós começámos a mandar tudo abaixo”. Contudo, a partir desse dia sentiu-se “que havia aqueles que vieram para o projecto achando que é só alistarem-se no voluntariado para serem voluntários e depois houve outras pessoas que a partir daí levaram-nos a sério”. Finaliza, apelando à vinda de quem sente que pode pertencer a este projecto. “É preciso é não ter medo de vir. É preciso é poder partilhar a esperança de um dia, daqui a relativamente pouco tempo, olharmos para uma casa e dizer que o amor conseguiu fazer esta casa, que a boa vontade conseguiu fazer esta casa”, finaliza.

Rapidamente, a conversa evoluí para a temática da generosidade e solidariedade dos portugueses. Mais concretamente para a questão de que esta tragédia trouxe, ou não,  esta melhor faceta dos portugueses ao de cima. Célio Silva, embora acreditando que sim, que essa situação se verificou, fala sobre o exemplo dos moradores nas localidades afectadas, e onde há intervenção da ReConstruir, em que não se verifica essa corrente. “Nós temos tido essa corrente por parte dos nossos contactos mais pessoais, mais próximos. Curiosamente, passa lá muito curioso vizinho que vai ou por mera curiosidade, ou, de certa forma, alguns até a lamentarem-se, porque aquela casa já está a andar e a deles, que também ardeu, nem sequer projecto terá”.  No entanto, Leonel Antunes contrapõe a ideia de que a generosidade dos portugueses é positiva. Para Leonel, é certo que veio ao de cima a generosidade dos portugueses, mas “desmesurada e mal ponderada”. E dá exemplos, como o de haver “muita gente, que chamou solidariedade e generosidade a um despejar do sótão” ou, quando esteve no centro operacional de Avelar, aquando do incêndio de Pedrógão, ser visto obrigado a gerir trânsito dentro da localidade para que um camião enorme pudesse levar até ao centro operacional “tabuleiros com sandes que eu podia perfeitamente ter levado no meu carro”. E coloca a questão de que caso estes exemplos sejam o melhor do nosso povo, então “temos muito que evoluir”.

Voltando à conversa sobre a ReConstruir, a relação com as autoridades, nomeadamente os Municípios, nomeadamente se a receptividade foi imediatamente positiva ou se algo ocorreu menos positiva. Todos concordaram que a situação era atípica e que isso dificultou todos os processos que pudesse existir. Aliás, como Célio Silva mencionou, houve Câmaras que, tendo poucos funcionários, perderam vidas nestes fatídicos incêndios. Aliás, Joel Silva ainda mencionou o factor financeiro. Nas suas palavras “estamos a falar de Câmaras com orçamento baixíssimo, estamos a falar de Câmaras, algumas delas, então, com planos de recuperação seríssimos, em termos de endividamento, que, de repente, se virão assolados por duas coisas estranhíssimas. Uma, perderem praticamente o seu património florestal. Segunda, estarem completamente assolados, quase atropelados, por um problema social. Morreram pessoas, morreram aldeias e pessoas ficaram sem casa. E outra, um montão de gente a dizer que quer ajudar, a dizer que vai ajudar”. Todos estes factores, então, levaram a que esses pontes de contacto não funcionassem, embora seja de comum acordo que era expectável face a esta situação atípica.

E se a ReConstruir, dentro destas condições peculiares, é um projecto a replicar, como, por exemplo, para o caso dos grandes incêndios de Outubro, a unanimidade verifica-se. Não pretendem ser exemplo para ninguém, nem acham que seja preciso o ser. Apelam a que quem tenha disponibilidade para que, no máximo, replique o projecto. Aliás, Leonel Antunes é pragmático ao afirmar que “uma iniciativa como o ReConstruir, ou muito melhor que o ReConstruir, que tem todas as condições para existir, ou para existirem, que envolva 0,5% da população portuguesa, resolve a maioria destas situações”. E como prova de que este projecto não é replicável, salientam que os elos de ligação que se construíram neste projecto, bem com as relações pessoais que são a base desta iniciativa, constituem a singularidade deste projecto e, nesse espírito, como forma de inspiração, no máximo, para eventuais outros projectos que possam surgir.

Na despedida, foi sugerido ao grupo que deixassem uma pequena mensagem de Natal aos nossos leitores. Leonel Antunes começa as hostes, começando por afirmar que “tal é quando os homens e as mulheres quiserem”. E que, “se há uma altura ou se houve uma altura, recentemente, em que houve gente a precisar dos valores do Natal, tais como a solidariedade, a entreajuda, o amor ao próximo, a generosidade, e que ali depois do Ano Novo e dos Reis, se esquecem um bocadinho para voltar a pegar neles no Dezembro seguinte, é agora”. Resumidamente, para Leonel esta pode ser a atitude  “de centenas de milhares, de milhões de pessoas em Portugal que podem adoptar essa forma de estar e, assim, efectivamente ajudar as pessoas e, portanto, façam o Natal acontecer mais vezes, façam esses valores do Natal acontecerem de uma forma mais presente, mais diária”. Já para Célio Silva, neste natal, lança o repto das famílias proporcionarem um natal diferente às famílias afectadas. Este Natal irá “adoptar uma família e dar um jantar, ou uma ceia, de Natal diferente”. Joel Silva afirma que “ o paradigma mudou, e hoje é possível fazer alguma coisa no Natal, diria quase para espiar as necessidades que nós temos no Natal de fazer qualquer coisa de bom, ao contrário, como diz o Leonel, ao contrário daquilo que seria expectável, fazer quando se necessita”. Vai mais longe e afirma que o repto do Célio é desafiante e que “ fazer um Natal com a nossa família e com estas famílias a quem nós estamos a ajudar, parece-me uma ideia excelente”. E finaliza deixando o desafio a agarrarem-se a um “ projecto qualquer a que ganhem amor, qualquer coisa de arrojado e, portanto, orgulhem-se disso. E melhorem a vida de alguém e vocês vão ver como isso vos faz bem, como isso vos vai encher de adrenalina e como isso vai fazer com que fazer bem não seja uma coisa de ajudar um coitadinho”.

Sharing is caring!