(Re)Construindo Esperança

Há seis meses deu-se aquela que foi considerada a maior tragédia em Portugal, no que respeita a fogos florestais. Os números são, ainda, aterradores, já que este incêndio fez 66 mortos, 253 feridos, sete dos quais graves, destruiu meio milhar de casas e quase 50 empresas, num incêndio que abrangeu onze concelhos de três distritos diferentes. Seis meses depois, também se dá a acusação formal dos primeiros arguidos, levando pelo menos dois elementos dos corpos de bombeiros às barras dos réus. Mas é também de esperança que se constrói esta história. E da resiliência de um bombeiro que, após dois meses e meio em coma e outro tanto tempo em convalescença, sai do hospital a tempo de passar o natal em casa.

O relatório desta tragédia é complexo. Os números, esses, são a tradução da tragédia vivida naquele pequeno pedaço remanescente de um paraíso perdido, por ventura a maior tragédia humana e florestal vivida na nossa história. Mas como em todas as histórias há um começo, nesta o início chama-se Escalos Fundeiros, uma pequena aldeia do concelho de Pedrogão Grande, no interior norte do distrito de Leiria. Eram 13:43 do dia 17 de Junho, um sábado. Já tinha sido emitido, contudo, o alerta de risco de incêndio para esse dia, mas longe estavam os portugueses, e o mundo, de pensar no que iria acontecer nessa longa semana, já que o incêndio, bem como o de Góis, resultante de Pedrogão Grande, só foram declarados extintos a 24 de Junho. Ou como algum dia imaginar-ia-mos que o nome Pedrogão Grande fosse pronunciado em pleno Vaticano, logo por estas razões.

Somente dez minutos após o primeiro briefing do então Secretário de Estado da Administração, Jorge Gomes, onde foi pressionado por jornalistas a confirmar, ou a desmentir, os rumores da existência de mortos, é que veio os primeiros dados oficiais, uma pálida sombra do que seria a consciencialização total do que fora esta tragédia. Aí declarou a existência de 19 vítimas mortais, sendo que nesse exacto momento descobre-se que os mais tenebrosos rumores tinham sido confirmados. Pelo menos 16 vítimas carbonizadas na Estada Nacional 236-1, que liga Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. Nesse exacto momento, o fogo teria 4 frentes activas. Se às 23:47 foi dada a pior das notícias, às 00:40 do então dia 18 de Junho, chega ao Posto de Comando Operacional, em Pedrogão Grande, o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa. Em Lisboa, o Primeiro-Ministro, António Costa, falaria à comunicação Social antes da reunião com o presidente da Autoridade Nacional de Protecção Civil e classifica a tragédia de Pedrógão como “a maior tragédia envolvendo vidas humanas de que temos conhecimentos, nos últimos anos, em Portugal”.

E não seria para menos, esta última declaração. Se olharmos para a história, esta é a catástrofe mais mortal, em Portugal, desde que aconteceu o desastre aéreo, em 1989, na Ilha de Santa Maria, nos Açores. E em termos de comparação com catástrofes naturais ocorridas em solo nacional, supera largamente as cheias ocorridas na Madeira em 2010, ou a Tragédia de Entre-os-Rios ou mesmo os incêndios florestais que iriam assolar, novamente, o nosso país em Outubro de 2017. Só quarenta e sete das vítimas mortais, dos 66 mortos, seguiam em viaturas, no dia 17 de Junho, e ficaram cercadas pelas chamas na EN (estrada nacional) 236-1, entre Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos ou em acessos a esta via. Dessas 47, trinta morreram presas no interior dos seus veículos, enquanto as outras 17 morreram nas proximidades, ao tentarem escapar a pé, sendo que uma delas morreu atropelada. Contudo, embora a causa de morte de 30 pessoas tenha sido atribuída a carbonização, alguns especialistas admitem que a causa de morte possa ter sido a inalação de fumos.

O incêndio de Pedrógão Grande foi “muito provavelmente aquele que, em Portugal, libertou mais energia e o fez mais rapidamente (com um máximo de 4.459 hectares ardidos numa só hora), exibindo fenómenos extremos de vorticidade e de projeção de material incandescente a curta e a longa distância”, afirma o relatório da Comissão Técnica Independente (CTI), criada pela Assembleia da República, em 10 de julho, para fazer “uma avaliação independente” dos incêndios ocorridos entre 17 e 24 de junho, naqueles 11 concelhos.

O restante da história já é conhecida, mas vamos à análise de números. Estes fogos devastaram cerca de 53 mil hectares de território, 20 mil hectares dos quais de floresta, sobretudo dos municípios de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos, no distrito de Leiria, de Góis, Penela e Pampilhosa da Serra (Coimbra) e da Sertã (Castelo Branco), mas também de Alvaiázere e Ansião (Leiria), de Arganil (Coimbra) e de Oleiros (Castelo Branco). Pelo menos, meio milhar de casas foram total, ou parcialmente, destruídas. Dessas, 169 eram de primeira habitação, 2015 de segunda habitação e 117 devolutas, de acordo com as estimativas avançadas pela Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro, a 3 de Julho, que calculava os prejuízos directos dos fogos em cerca de 200 milhões de euros e prevendo mais 300 milhões de euros para medidas de prevenção e relançamento da economia na região.

E, falando em economia, 50 empresas foram atingidas, no que resulta a 372 postos de trabalho directo afectados. No que tange aos prejuízos, a maior fatia tem origem na floresta, resultando em, pelo menos, oitenta e três milhões de euros, enquanto os danos em habitação particular foram de mais de 27 milhões de euros, na indústria e turismo perto de 31 milhões de euros e noutras actividades económicas mais de vinte e sete milhões e meio de euros. E na agricultura, fonte de sustento de tantas famílias daquela zona, os prejuízos rondaram os 21 milhões de euros, valor semelhante ao estimado para os danos provocados em infraestruturas municipais. Já a rede viária nacional ficou danificada em perto de três milhões de euros.

Mais de 1.200 animais de explorações afectadas foram assistidos, por voluntários, nos dez dias posteriores aos incêndios, de acordo com a Cooperativa Agro Pecuária do Sudoeste Beirão. Aqueles animais equivalem a cerca de metade dos que terão ficado feridos, de acordo com a mesma fonte, que estima em mais de um milhar, sobretudo ovinos e caprinos, os animais mortos pelas chamas (em 07 de julho já tinham sido recolhidos perto de meio milhar cadáveres, segundo o Ministério da Agricultura). Por outro lado, pelo menos 300 veados, corços e javalis morreram na Serra da Lousã, disse à agência Lusa, em 01 de Julho, o biólogo Carlos Fonseca.

Em relação ao tempo de resposta, nomeadamente à eficiência, ou não, do Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal, vulgo SIRESP, o relatório de desempenho deste sistema, publicado no dia 27 no portal do Governo, indica que o número de chamadas processadas nas 16 estações-base, entre as 19:00 de 17 de Junho e as 09:00 do dia seguinte, foi de 115.255, representando uma média de 8.233 chamadas feitas por hora. Cerca de 08% (mais de 10 mil) das 115.255 chamadas feitas nos incêndios de Pedrógão Grande, entre as 19:00 de 17 de junho e as 09:00 do dia seguinte, não foram feitas à primeira tentativa devido à saturação da rede, revelou o SIRESP.

Cronologicamente, a acção política centrou-se na aprovação, por unanimidade de um voto de pesar pelas vítimas destes incêndios, a 21 de Junho, na Assembleia da República. Nesse mesmo dia, Presidente da República, Primeiro-Ministro e mais altas figuras da política nacional marcaram presença no funeral do bombeiro Gonçalo “Assa”, em Castanheira de Pêra. O primeiro-ministro, António Costa, revela, em 28 de Junho, que os sete concelhos afectados pelos incêndios que afectaram o interior da região Centro vão ser alvo de um projeto-piloto de reordenamento da floresta. O primeiro-ministro, António Costa, revelou, em 28 de Junho, que os sete concelhos afectados pelos incêndios que afectaram o interior da região Centro vão ser alvo de um projeto-piloto de reordenamento da floresta. O Governo pretende “utilizar este território para fazer um projeto-piloto no reordenamento da floresta, na revitalização do interior”. A 03 de Julho, o governo previa investir 100 milhões de euros para o projeto-piloto de gestão florestal do Pinhal Interior, afectado pelos incêndios, e 58 milhões para arborização e rearborização do território.

Três meses depois dos incêndios, o Fundo Revita, entretanto constituído para gerir os donativos para as vítimas dos incêndios, apontava para a reconstrução de 199 casas de primeira habitação, das quais 95% estavam em andamento, com obras em projecto, em consulta de preço, adjudicação, consignadas ou em execução, estando 19 concluídas. A 9 de Outubro, o relatório trimestral do Fundo, que envolve 35 empresas e outras entidades, revelava já ter recolhido o valor global de mais de 3,7 milhões euros de donativos (dois milhões de euros em Setembro) e que, das 205 habitações que precisavam de reconstrução, 35 estão concluídas. O Conselho para a atribuição de indemnizações às vítimas dos incêndios de 15 de Junho e de 17 de Outubro deste fixou, em final de Novembro, em 70 mil euros o valor mínimo para privação de vida, valor que, no entanto, caberá à provedora de Justiça estabelecer em relação a cada um dos casos. As seguradoras anunciaram, em 13 de Julho, que vão pagar indemnizações no valor de 18,8 milhões de euros, depois de um “primeiro apuramento de danos”.

No entanto, o mote seria dado pelo Presidente da República. A célebre frase que ilustrava a desolação sentida, mas que também permitia dar às populações o rasgo de  de esperança tão necessário para quem sofreu um inferno.

“O RENASCER DAS CINZAS”

Ainda o fogo deflagrava em Pedrogão Grande e já várias eram as entidades, organizações e pessoas que, auto-organizando-se, faziam o que podiam para ajudar os bombeiros que combatiam os fogos, mas também as populações, ao longo do descortinar da tragédia que então se vivia. Desde associações humanitárias abrir portas para recolha de alimentos, até à criação de um evento único, que juntou as televisões generalistas e as rádios nacionais e locais numa emissão em directo, com o apoio de vários artistas, para angariação de fundos, a ajuda veio de todo o lado, mesmo fora de fronteiras.

Ainda mesmo agora, depois de seis meses, continuam a chegar pessoas um pouco de todo o país à zona afectada. Principalmente, e porque estamos em tempo de Natal, para dar um abraço. No entanto, nas primeiras semanas, muitas das aldeias que estavam habituadas a ver meia dúzia de carros a passar por dia registaram um movimento de viaturas pouco comum, para entregar roupa e comida, juntando-se também muitos voluntários pelos centros de recolha para fazer triagem de roupa e criar ‘kits’ de higiene ou de alimentação. Mas a ajuda não veio só da sociedade civil, veio também, por exemplo, dos Enfermeiros, já que vários enfermeiros começaram a contactar a Ordem no sentido de se oferecerem para doar o seu tempo, acudindo aos feridos e a familiares de vítima.

Rapidamente, a classe artística reúne-se para ajudar quem mais necessita. David Fonseca daria, uma semana depois, um concerto solidário em Leiria. No entanto, é no MEO Arena, antigo Pavilhão Atlântico, que se fará história, pelos melhores motivos. É a 27 de Junho que se realizará o concerto “Juntos por Todos”, que esgotou rapidamente a sala, que juntou Agir, Amor Electro, Ana Moura, Áurea, Carlos do Carmo e Camané, Carminho, DAMA, David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Hélder Moutinho, Luís Represas e João Gil, Jorge Palma e Sérgio Godinho, Luísa Sobral, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso e Salvador Sobral. Nesta iniciativa, angariou-se mais de um milhão de euros, que foram doados à União das Misericórdias Portuguesas, que depois canalizaria para as zonas afectadas. A ideia do espectáculo partiu do promotor Vasco Sacramento, que no dia 18 de Junho anunciaria na rede social Facebook a intenção de fazer um concerto solidário, sensibilizado com as vítimas do incêndio e que acabaria por ser transmitido pela  RTP, SIC, TVI e por todas as rádios portuguesas, ao vivo e em directo pela primeira vez na história da comunicação social portuguesa.

O voluntariado foi logo imediato, bem como o apoio em géneros. Roupa, comida e mantimentos para animais, primeiras vítimas como as populações locais, foram requeridas. A tão preciosa água, necessária para apagar o fogo, foi doada em garrafas e garrafões para que os soldados da paz, bem como barras energéticas. Ao todo, não se sabe quanto foi recolhido, mas Pombal, que foi muitas vezes o ponto de abastecimento das zonas afectas, derivado à sua localização privilegiada, como Ansião, ou Figueiró, Castanheira e Pedrogão, encheram-se rapidamente dessa ajuda preciosa. Aliás, em Castanheira, o gimnodesportivo usado como quartel-general da recolha de roupa, não chegou para os donativos. Porém, carecia de ajuda na coordenação eficiente dessa ajuda chegada de, não será exagero dizer, dos quatro cantos do mundo. Por isso, a chegada dos Médicos do Mundo ao concelho de Castanheira foi tão preciosa.

No site desta Organização Humanitária, podemos encontrar vários testemunhos sobre esta situação. Mas é o da directora executiva, Dr.ª Carla Paiva, que encontramos a ilustração do que foi esses momentos. No primeiro dia, quando a Médicos do Mundo chegou ao terreno, não existia uma coordenação eficaz que nos permitisse chegar às pessoas e responder às suas necessidades. Foi importante criar um mecanismo, com diversas áreas e parceiros integrados, para que a ajuda chegasse a quem realmente precisa. E juntos respondemos às necessidades emergentes. Agora é tempo de continuar, de melhorar e de chegar a mais pessoas”, afirma. Estava iniciada, então, a Missão Esperança, que contou com cerca de 1300 voluntários que permitiram a resposta a 845 pedidos de ajuda. Entre os apoios dados, está a distribuição de 1 247 kits, entre os quais 317 de alimentação, 232 de higiene, 164 de limpeza e 524 saídas de rações, para além da recuperação de mais de 10 hortas e galinheiros e a limpeza de escombros das casas afectadas. Segmentada pelas respostas de cuidados primários de saúde, apoio psicossocial, coordenação do voluntariado, coordenação logística e distribuição de bens, em articulação directa com entidades locais, como a Câmara Municipal de Castanheira de Pera – fiel depositária dos donativos recebidos – a Junta de Freguesia, a Guarda Nacional Republicana, a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários, o Comando dos Bombeiros, a Santa Casa de Misericórdia de Castanheira de Pera, a Paróquia e o Centro Paroquial, esta missão prolongar-se-à durante 1 ano, enquanto projecto de continuidade, e será desenvolvida graças à solidariedade de voluntários e doadores que, todos os dias ajudam a devolver vida a Castanheira de Pêra.

E além destas ajudas todas, não se pode olvidar de quem esteve, desde a primeira hora, juntamente com os Bombeiros e Forças de Segurança, no auxílio às populações e ao quem combatia as chamas. Os mais de 300 escuteiros envolvidos no apoio no terreno, distribuídos pela ” região de Coimbra, Castelo Branco e Leiria”, e que apoiaram em toda a zona afectada no interior norte do distrito de Leiria, como refereria à agência Lusa, em Pedrógão Grande, o delegado do Departamento Nacional de Proteção Civil e Segurança do Corpo Nacional de Escutas, Rui Proença. Ou as forças militares que foram convocadas para o auxílio no terreno. Esta tragédia, portanto, iria dar uma resposta clara ao espírito de união e interajuda que tanto o povo português, como as suas variadas instituições dariam face a uma situação que muitos não se escusam de declarar como atípica.

A ajuda que vem de fora, não se direcciona somente na prestação de apoio imediato às necessidades das pessoas afectadas, antes pelo contrário. O que este incêndio trouxe foi o despertar de um problema que há muito se sente: a desorganização do nosso território florestal, o que tanto impossibilita, por vezes, a actuação dos nossos bombeiros.  Ajudar na prevenção e sensibilização para os incêndios em Portugal é o principal objectivo de um grupo de emigrantes residentes no Reino Unido, que constituiu o grupo intitulado “Diáspora por Portugal Sem Fogo”. Vários desses elementos são oriundos de zonas afectadas pelos fogos deste verão, como Viseu, Oliveira de Frades, Coimbra e Penacova e outros tantos são, também, voluntários em Portugal, activos ou na reserva, e, por isso, sensíveis ao tema. Passada que está a fase de ajuda mais urgente, o grupo quer agora centrar-se em acções que possam contribuir para colmatar algumas falhas na prevenção e combate dos incêndios florestais, a maioria, vincou, causados por humanos, quer por descuido, negligência ou por malícia. Uma das propostas práticas discutidas foi apostar no uso de novas tecnologias e adquirir drones, que seriam entregues a organizações ou corporações de bombeiros em Portugal. A nível da sensibilização da comunidade, pensaram em mobilizar escuteiros e bombeiros voluntários para fazerem palestras em escolas e alertarem para a necessidade de limpeza das zonas florestais e para os riscos de certos comportamentos, como o uso de fogos para grelhados ou o descartar de beatas de cigarros.

Foi no dia 14 de Agosto, que os familiares das vítimas, reunidas em assembleia geral na Casa da Cultura de Pedrógão Grande, formaram a Associação das Vítimas do Incêndio de Pedrogão Grande, elegendo Nádia Piazza presidente da recém-constituída associação. Seria a resposta dos familiares para a tamanha tragédia pessoal que sofreram, zelando por temas como incêndios, as suas causas, dimensões e danos materiais e humanos, tendo também como principal objectivo a apuração das responsabilidades. Mas não se fica por aqui, já que pretendem ter um papel preponderante para, junto das instâncias europeias, a sensibilização destas problemáticas, contando com o apoio de um movimento cívico da Galiza, também afectado por esta problemática, de forma a haver uma coordenação futura.

O balanço até agora

Seis meses volvidos, é tempo de fazer um balanço do que até agora foi feito. Em Dezembro, numa audição no parlamento, João Paulo Catarino, coordenador da Unidade de Missão para a Valorização do Interior, afirmou que das 264 casas afectadas pelo incêndio de Pedrógão Grande e apoiadas pelo Estado na reconstrução, mais de 100 foram já intervencionadas e entregues aos proprietários. Afirmou ainda que as habitações que faltam reconstruir já se encontrão adjudicadas aos respectivos empreiteiros e estarão em obras, provavelmente, até ao final do ano. Excepção feita a um número não superior a meia dúzia, que contando com outros problemas, não podem ser já intervecionadas. Refutando algumas críticas, aponta que que as obras implicam projectos e licenciamentos e indicando que “mais de uma centena de casas” necessitam de reconstruções totais. Refere, ainda, que o peso orçamental deste processo está estimado em 9,7 milhões de euros. Já no plano de restabelecimento do potencial agrícola, o coordenador afirma que “foram apoiados até agora 2.090 agricultores, num montante de 3,222 milhões de euros”, verba que já foi distribuída aos agricultores da zona afetada pelo incêndio de 17 de Junho, “com excepção de 583 mil euros” que se destinam a concelhos que não são do fundo REVITA [Fundo de Apoio às Populações e à Revitalização das Áreas Afectadas pelos incêndios ocorridos em junho de 2017] e que vão ser pagos futuramente com dinheiro da Fundação Calouste Gulbenkian e da União das Misericórdias.

Já no plano económico, e citando João Paulo Catarino, foram já apoiadas 24 empresas, com um investimento de 22,3 milhões de euros, e estão actualmente aprovados 15,4 milhões de euros para repor as infraestruturas e os equipamentos municipais afectados pelo incêndio de Junho. Em relação à estabilização de emergência no pós-incêndio, as entidades que apresentaram candidaturas neste âmbito viram aprovados contratos e projetos no valor de 10,3 milhões de euros, avançou João Paulo Catarino, adiantando que estas entidades “estão em condições” de trabalhar, nomeadamente na limpeza dos caminhos. No entanto, para o responsável em relação às medidas de apoio à estabilização de emergência após o incêndio, há lamentar o atraso resultado da complexidade do processo burocrático inerente. Aliás, conclui mesmo que “o ideal é que tivessem sido mais céleres.

Já para os autarcas dos três concelhos mais atingidos pelo incêndio de Junho, já que lamentar o facto de não ser possível realojar todos antes do Natal, mas ainda assim persistem na confiança da reconstrução de todas as habitações.  “Satisfeita estaria se todas as pessoas já estivessem neste momento nas suas habitações”, disse à agência Lusa a presidente da Câmara da Castanheira de Pera, Alda Correia. No entanto, a autarca, recém-eleita, salientou que o município, a Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro (CCDRC) e demais instituições parceiras “estão a fazer todos os esforços” para que tal se concretize “o mais rapidamente possível”. As “pequenas reparações estão no bom caminho”, mas os processos de reposição das casas de primeira habitação destruídas pelo fogo que há meio ano deflagrou em Escalos Fundeiros, no vizinho concelho de Pedrógão Grande, têm sido mais demorados. As obras de reconstrução “já foram iniciadas” em sete residências, entre 66 afetadas total ou parcialmente no concelho da Castanheira de Pera, segundo a presidente da Câmara. Também no caso das empresas locais, designadamente duas firmas ligadas à exploração florestal, que empregavam “algumas dezenas” de pessoas, a reconstrução “está no bom caminho”, com a CCDRC, presidida por Ana Abrunhosa, a assegurar “um acompanhamento com alguma proximidade”, sublinhou Alda Correia.

Por sua vez, Jorge Abreu, presidente da Câmara Municipal de Figueiró dos Vinhos, disse que, das cerca de 30 casas de primeira habitação do município, “todas já estão em obra e a maioria delas já foram concluídas”. “O apoio do Governo e do Presidente da República”, bem como de outras entidades, “tem sido constante” num conjunto de concelhos, nos distritos de Leiria, Coimbra e Castelo Branco, que “nunca tinham passado por uma situação destas”, referiu. O edil admitiu que, nas primeiras semanas após o incêndio, chegou a haver “algum receio” de que não seria possível “dar seguimento a tudo” ao nível social, económico e da saúde, mas também ambiental e nas infraestruturas e equipamentos públicos. “É preciso fazer, mas fazer bem. Não nos podemos queixar do Governo e da comunidade em geral”, cujo apoio “tem sido significativo”, acentuou o autarca socialista em declarações à Lusa.

Também Valdemar Alves, presidente da Câmara de Pedrógão Grande, entende que “tem havido uma resposta cabal do Governo” e demais poderes públicos “em todas as áreas” atingidas pelo fogo. “Estão entregues todas as casas de primeira habitação”, enquanto alguns proprietários, por sua iniciativa, “estão também a reconstruir as de segunda habitação”, afirmou. O autarca, reeleito pelo PS, destacou ainda o trabalho que diferentes instâncias do Estado têm realizado na saúde, na segurança social e no incentivo à agricultura de subsistência, entre outros domínios. “Todos ficámos afectados e não tem sido fácil” retomar a normalidade da vida local ao longo destes seis meses, reconheceu. Por outro lado, “é necessário tentar” garantir trabalho às pessoas que perderam o emprego, designadamente aquelas que tinham atividades ligadas à floresta, agora devastada pelas chamas. Valdemar Alves disse esperar que, na área do emprego, a situação venha a ser alterada “o mais rapidamente possível”, tanto em Pedrógão Grande, como nos municípios vizinhos, com os anunciados investimentos do grupo Lusiaves na região e a conclusão do processo negocial para criar “duas empresas na área da energia”.

Já no plano da reflorestação, ainda há muito por fazer. Ao percorrer o território, ainda se vê os sinais da tragédia, embora com claros sinais de regeneração. No entanto, a maior parte dos terrenos estão por cortar e as acções de reflorestação, até ao momento, resumem-se a iniciativas solidárias e pontuais. Na zona de Pedrógão Grande, os proprietários aguardam por medidas e há já quem esteja disposto a reverter a aposta no eucalipto, espécie que domina a paisagem da região. Embora o investimento feito, até agora, e com capitais próprios seja maioritariamente em eucalipto, há quem esteja interessado em investir noutras espécies, esperando por medidas do Programa de Desenvolvimento Rural, que, neste momento, estão fechadas, para dar seguimento a esse interesse. E esse interesse está materializado na Associação Raiz Permanente, que nasceu depois dos incêndios em Pedrógão Grande, procura mostrar que há outras soluções. E já em Janeiro, pretendem avançar com dois projectos-piloto em terrenos de dois associados. Num dos locais (com seis mil metros quadrados), vão criar um medronhal com castanheiros e protecção de ciprestes, e noutro terreno mais pequeno (500 metros quadrados) vão criar uma barreira de ciprestes e trabalhar de forma escalonada com aromáticas ou plantas para as abelhas. E é nesta alternativa à reflorestação pelo eucalipto, que Ferraria de São João é um dos poucos exemplos visíveis, já que os moradores não esperaram por acções do Estado para iniciar o processo à volta da aldeia do concelho de Penela, também afectada pelo incêndio de Pedrógão Grande. Com o intuito de criarem uma zona de protecção, já arrancaram os eucaliptos e começaram agora a plantar espécies autóctones como o sobreiro, o carvalho ou o castanheiro, com a ajuda de voluntários.

E seis meses depois dos incêndios, foram constituídos os primeiros arguidos neste caso. Mário Cerol, segundo comandante do Centro Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Leiria e o comandante dos bombeiros voluntários de Pedrogão Grande, Augusto Arnaut, que foram já ouvidos pelo Departamento de Investigação e Acção Penal de Leiria. Segundo algumas fontes, em causa estão factos que podem integrar crimes de homicídio e ofensas corporais por negligência. Várias, também, são as notícias de que outros poderão vir a ser constituídos arguidos. A investigação aponta assim para um universo de pessoas que não cumpriram um conjunto de obrigações e que contribuíram, em medidas diferentes, para as mortes que vieram a verificar-se.

E este Natal será mais animado para a família do bombeiro Rui Rosinha. Após seis meses, dois meses e meio deles passado em coma, voltou a casa no dia 14 de Dezembro. “O Rui Rosinha regressou hoje a casa. Vai continuar a fazer fisioterapia em Castanheira de Pera, na unidade da Santa Casa da Misericórdia”, disse à agência Lusa o comandante dos bombeiros de Castanheira de Pera, José Domingues. Rui Rosinha foi um dos quatro bombeiros da corporação local que ficaram internados na sequência deste incêndio. O bombeiro esteve internado em dois hospitais do Porto e, posteriormente, foi transferido para os Hospitais da Universidade de Coimbra, onde esteve em recuperação.

Certamente que este Natal não será tão feliz para os familiares e amigos, bem como a população, no geral, daquelas zonas afectadas. O silêncio e a ausência das mais de sessenta pessoas que sucumbiram a este fatídico acontecimento, pesará muito. Mesmo com a boa-vontade demonstrada pelos portugueses, nada poderá devolver as vítimas, quatro delas crianças, que foram levadas. E é percebendo essa realidade, que o Presidente da República passará o dia 25 de Dezembro em Pedrogão, passando por Castanheira de Pêra e Figueiró dos Vinhos. E que lembrou, numa iniciativa em Belém, aquando da instalação de uma árvore de Natal alusiva ao incêndio, que é necessário ter esperança de um futuro melhor. Mas nunca esquecendo, porém. Porque, para todos os aspectos, esta foi uma dura lição que todos nós tivemos que aprender.

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